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Falta de imunobiológico na rede pública ameaça a vida de pacientes

A Asbai afirma que a falta atinge praticamente todo o país

6 de dezembro de 2020
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Falta de imunobiológico na rede pública ameaça a vida de pacientes

Foto: Getty Images/iStockphoto

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Pacientes que fazem uso da imunoglobulina humana policlonal não estão encontrando o medicamento na rede pública. A Asbai (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia) afirma que a falta atinge praticamente todo o país.

A imunoglobulina é um componente do sangue que traz anticorpos para várias doenças, desde as simples até as mais graves. Estão na lista o tétano, a rubéola, vários tipos de gripes e a difteria, entre outras.

A entidade enviou uma carta ao Ministério da Saúde na qual relata a preocupação e os riscos que o problema pode trazer aos pacientes que dependem da medicação.

A médica Ekaterini Simões Goudouris, diretora da Asbai, diz que o desabastecimento ocorre desde o final de 2018. “Não sabemos o que aconteceu, mas conseguimos identificar que o Ministério da Saúde faz pregão e decidiu que precisava comprar o frasco mais barato.”

A médica responsabiliza o governo federal por não utilizar recursos próprios na fabricação do imunobiológico.

“Temos doadores de sangue, uma fábrica que começou a ser construída em Pernambuco para que a gente possa aproveitar o plasma dos brasileiros doadores. Nós dependemos dos fabricantes estrangeiros. Como são fabricantes internacionais, eles não têm a obrigação de fornecer mais barato ao governo brasileiro e terem prejuízo”, ressalta.

Em 2019, o Ministério da Saúde comprou por pregão dois produtos de imunoglobulina não aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Na ocasião, a Asbai foi contra a compra e evidenciou os riscos que o medicamento rejeitado em análise poderia oferecer aos pacientes. Ainda assim, após avaliação do INCQS (Instituto Nacional Controle Qualidade em Saúde)/Fiocruz, a Anvisa autorizou a distribuição dos lotes que já haviam chegado ao Brasil.

Os lotes recebidos já terminaram e os demais frascos adquiridos não foram enviados pelos fabricantes sob a alegação de problemas de transporte por causa da pandemia de Covid-19.

Recentemente, segundo a Asbai foi informada, houve um reequilíbrio no contrato firmado com os fabricantes e o ministério receberá imunoglobulina suficiente para abastecer o Brasil até junho de 2021.

“Esse reequilíbrio no contrato foi assinado em setembro. Estamos em dezembro e ainda nada da imunoglobulina. Tudo está muito obscuro e difícil. Como não sabemos quantas pessoas usam, não conseguimos avaliar se o número de frascos que eles disseram que vão receber, de fato, vai durar até junho”.

A imunoglobulina tem duas finalidades: repor anticorpos quando o indivíduo não tem capacidade para produzir por conta própria e modular o sistema imunológico de algumas pessoas para ser utilizada contra várias doenças -as neurológicas, como a síndrome de Guillain-Barré, neuropatias, doença de Kawasaki, trombocitopenia imune, entre outras.

De acordo com Goudouris, quem tem doença autoimune pode contar com outros recursos para modular o sistema imunológico. Há remédios que são imunossupressores e imunomoduladores.

“As pessoas que não fabricam esses anticorpos não têm outra opção e é por isso que nós estamos preocupados. Temos que deixar o paciente usar antibiótico o tempo todo e isso não é tão eficaz quanto receber imunoglobulina. Esses pacientes têm mais risco de vida. É o caso das doenças que chamamos de imunodeficiências primárias”, explica Goudouris.

Estima-se que estejam sem tratamento de 70% a 75% dos pacientes com defeitos primários do sistema imunológico que precisam da reposição do imunobiológico, tanto pela via intravenosa como pela via subcutânea, de modo regular e contínuo.

Em números absolutos é difícil estimar quantas pessoas dependem somente da imunoglobulina humana policlonal, devido principalmente à subnotificação. O registro latino-americano de pacientes indica que, no Brasil, quase 2.000 estão cadastrados, mas que recebem imunoglobulina somente 400. A Asbai acredita que o número seja muito maior.

“É possível que esse número de 400 seja na cidade do Rio de Janeiro, se não for mais. Então, não temos esta estimativa. As secretarias da Saúde não dão muita transparência para esses números e não há como consultar no site do Ministério da Saúde quantos pacientes recebem a imunoglobulina”, afirma.

A reportagem questionou o Ministério da Saúde sobre o problema, mas não obteve resposta até o momento.

Patrícia Pasquini/Folhapress

 
 
 
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