Campanha chama atenção para a importância do cuidado emocional, do diagnóstico precoce e do combate ao estigma em torno dos transtornos mentais
No começo de um novo ano, planos, metas e promessas costumam ocupar espaço na rotina das pessoas. Em meio a listas de objetivos profissionais, financeiros e pessoais, um aspecto essencial ainda é frequentemente deixado de lado: a saúde mental. É justamente para provocar essa reflexão que surge o Janeiro Branco, campanha nacional dedicada à conscientização sobre o cuidado emocional e psicológico.
Foi após um período de esgotamento emocional que Ana (nome fictício), 34 anos, percebeu que algo não ia bem. “Eu acordava cansada, mesmo dormindo. Comecei a perder o interesse por coisas que sempre gostei e achava que era só estresse”, relata. A busca por ajuda profissional revelou um quadro de ansiedade associado à depressão. “Entender o que estava acontecendo comigo foi libertador. Percebi que não era fraqueza, era saúde”, afirma.
Histórias como a de Ana se repetem em diferentes contextos sociais e faixas etárias. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), transtornos mentais como depressão e ansiedade estão entre as principais causas de incapacidade no mundo. No Brasil, os números também preocupam: o país lidera o ranking de ansiedade e apresenta crescimento significativo nos casos de depressão, especialmente após a pandemia de covid-19.
Dentro desse cenário, outro transtorno tem ganhado cada vez mais visibilidade: o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em adultos. Dados internacionais mostram um aumento expressivo nos diagnósticos nos últimos anos, não porque o transtorno esteja se tornando mais comum, mas porque ele passou a ser melhor reconhecido. Durante muito tempo associado apenas à infância, o TDAH pode persistir ao longo da vida e se manifestar na fase adulta por meio de desatenção, dificuldades de organização, impulsividade e inquietação interna, muitas vezes confundidos com ansiedade ou depressão. O diagnóstico tardio tem permitido que muitas pessoas compreendam suas dificuldades e busquem tratamento adequado, reforçando a importância do olhar atento para a saúde mental ao longo de toda a vida.
Criado em 2014, o Janeiro Branco tem como principal objetivo estimular o diálogo sobre saúde mental, promover informação de qualidade e reduzir o preconceito que ainda cerca o tema. Apesar dos avanços, muitas pessoas seguem adiando a busca por ajuda por medo de julgamento ou por acreditarem que “vai passar sozinho”.
Para a psicóloga clínica Mariana Lopes, esse é um dos maiores desafios. “Ainda existe a ideia de que procurar um psicólogo ou psiquiatra é sinal de fraqueza. Na verdade, é um ato de responsabilidade consigo mesmo”, explica. Ela destaca que o sofrimento emocional nem sempre é visível e pode se manifestar de formas sutis, como irritabilidade constante, alterações no sono, dificuldade de concentração e isolamento social.
Apesar de ganhar destaque em janeiro, o cuidado com a saúde mental precisa ser contínuo. Pequenas atitudes, como respeitar limites, manter uma rotina equilibrada, buscar apoio emocional e valorizar momentos de descanso, fazem diferença no dia a dia.
Para Ana, iniciar o tratamento mudou sua relação consigo mesma. “Aprendi que cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo. Hoje, me escuto mais e não ignoro meus sinais.”
O Janeiro Branco deixa um convite claro: que o começo do ano seja também o início de uma relação mais atenta, empática e responsável com a própria saúde mental — e com a do outro.













