Denúncias também envolvem suspeitas de charlatanismo, estelionato e ameaças; médium é defendida por pessoas que afirmam ter recebido mensagens com informações desconhecidas
Famílias que procuraram a médium cearense Maira Rocha em busca de mensagens de parentes mortos passaram a questionar a autenticidade das cartas psicografadas após identificarem informações que, segundo elas, poderiam ser encontradas na internet.
As denúncias ganharam repercussão após serem apresentadas em uma reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, no último domingo. De acordo com os relatos, dados publicados anteriormente em redes sociais, reportagens e outros conteúdos disponíveis na internet teriam aparecido nas mensagens atribuídas a pessoas já falecidas.
Maira Rocha, natural de Jati, no Ceará, também é alvo de outras acusações, incluindo suspeitas de charlatanismo, estelionato e ameaças. Procurada pela reportagem, ela não concedeu entrevista.
Informações sobre jovem morto levantaram suspeitas
Entre as pessoas que questionam o trabalho da médium está a comerciante Marcela Magalhães, que perdeu o filho Henrique, de 18 anos, em um acidente de carro.
Durante uma transmissão, Maira teria se referido ao jovem como um jogador de futebol que morreu precocemente. Segundo a família, Henrique nunca atuou profissionalmente no esporte.
A mãe, então, descobriu que uma fotografia do filho usando uniforme esportivo havia sido publicada em uma reportagem sobre o acidente. Na mesma publicação, Henrique também teria sido identificado erroneamente como jogador de futebol.
Outro episódio aumentou a desconfiança da família. Em uma mensagem, a médium teria associado Henrique a dois jovens que apareciam em uma montagem publicada nas redes sociais de Marcela. No entanto, segundo ela, as três pessoas haviam morrido em períodos e circunstâncias diferentes.
Famílias apontam erros em mensagens
Outro relato é o de Diva Mascarenhas Borges, que também procurou Maira após a morte de um familiar. Segundo ela, algumas informações presentes na carta não correspondiam à realidade.
Em um dos trechos, a mensagem dizia que o falecido gostaria de conversar com a esposa, Judite. O problema, segundo Diva, é que Judite já havia morrido cerca de um ano antes.
A família também estranhou a presença de nomes antigos de dois irmãos adotivos de Diva. Os nomes registrados originalmente apareciam na mensagem, embora eles já utilizassem outros nomes no convívio familiar.
Denúncias chegaram a entidades espíritas e à polícia
As suspeitas também foram levadas à Federação Espírita do Distrito Federal. Segundo relatos apresentados na reportagem, outras pessoas procuraram a entidade para questionar o conteúdo das chamadas cartas consoladoras.
De acordo com o presidente da instituição, Paulo Costa, algumas pessoas afirmaram ter procurado Maira em momentos de luto e, posteriormente, encontrado informações semelhantes às apresentadas nas mensagens em jornais, redes sociais e outros conteúdos disponíveis na internet.
Outro denunciante, identificado apenas como Silvano, questionou uma carta atribuída à própria mãe, morta no ano 2000. Segundo ele, a mensagem citava alguns familiares, mas deixava de fora um dos netos e incluía outra pessoa de forma equivocada.
Silvano registrou boletins de ocorrência no Distrito Federal por suspeitas de charlatanismo e ameaça. O material apresentado também aponta registros contra a médium em diferentes estados, envolvendo acusações como estelionato, calúnia, difamação e ameaça.
Quem é Maira Rocha?
Maira Rocha é advogada, trabalha no Ministério da Saúde e se tornou conhecida no meio espírita pelas atividades relacionadas à mediunidade e às chamadas cartas consoladoras.
No início de 2026, ela fundou a Casa da Caridade Inácio Daniel, instituição voltada para atividades assistenciais e espirituais.
Segundo informações apresentadas na reportagem, o espaço realiza atendimentos espirituais e ações sociais, como distribuição de alimentos, roupas e agasalhos.
A instituição também promovia leilões de roupas e objetos utilizados pela médium durante sessões. A prática foi criticada por representantes do movimento espírita, que defendem que o exercício da mediunidade não deve envolver interesses financeiros pessoais.
Relatos sobre experiências mediúnicas desde a infância
Antes de se tornar conhecida pelas cartas psicografadas, Maira já havia relatado publicamente experiências mediúnicas desde a infância.
Durante uma palestra realizada em 2019, em Franca, no interior de São Paulo, ela afirmou que teria começado a perceber e se comunicar com espíritos aos sete anos.
Segundo o relato da própria Maira, ela cresceu no interior do Ceará, em uma família com diferentes crenças religiosas, e suas experiências não eram compreendidas pelos familiares naquele período.
No entanto, uma prima da médium contestou parte dessas histórias. Márcia Rocha afirmou que nunca presenciou manifestações mediúnicas durante a infância de Maira e disse acreditar que situações desse tipo dificilmente passariam despercebidas em uma cidade pequena.
Médium também recebe apoio de pessoas que acreditam em seu trabalho
Apesar das denúncias e questionamentos, Maira Rocha também é defendida por pessoas que afirmam ter recebido cartas com informações que, segundo elas, não eram conhecidas publicamente.
Em vídeos publicados nas redes sociais da médium, familiares relatam experiências que consideram provas da autenticidade das mensagens.
Um dos relatos é de um homem que perdeu o filho durante um assalto e afirma ter recebido, anos depois, informações sobre seu apelido, um presente dado pelo jovem e detalhes relacionados ao seu trabalho.
Outra mulher afirma ter recebido uma carta atribuída ao filho, morto durante a pandemia de Covid-19, contendo informações que, segundo ela, somente os dois conheciam.
Há ainda relatos de pessoas que dizem ter recebido mensagens com referências a acontecimentos e locais antigos da família, posteriormente confirmados por parentes.
Ameaças e outras acusações seguem sob apuração
Além das denúncias relacionadas às cartas psicografadas, Maira Rocha também é alvo de acusações de ameaça, estelionato, charlatanismo, calúnia e difamação.
O Ministério Público também recebeu denúncias envolvendo suspeitas de apropriação indébita e possíveis desvios de recursos. As acusações ainda são objeto de apuração.
Marcela Magalhães afirmou que teria sido ameaçada após começar a questionar o trabalho da médium. Segundo ela, Maira teria dito que poderia divulgar informações pessoais compartilhadas durante um momento de fragilidade emocional.
O caso reúne diferentes versões e relatos. Enquanto algumas famílias afirmam ter identificado informações públicas nas mensagens recebidas, outras defendem a autenticidade das cartas e relatam experiências que, segundo elas, não poderiam ser explicadas por dados disponíveis na internet.














