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Aliado de Bolsonaro, Osmar Terra admite à CPI erro em projeção da pandemia e é confrontado sobre imunidade de rebanho

O parlamentar reconheceu que errou, mas justificou a situação argumentando que elaborou suas projeções com base nos dados disponíveis na época e também nas informações de epidemias anteriores

22 de junho de 2021
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Aliado de Bolsonaro, Osmar Terra admite à CPI erro em projeção da pandemia e é confrontado sobre imunidade de rebanho

CPI da Covid ouve o deputado Osmar Terra (MDB-RS), que é apontado como um dos conselheiros do presidente Jair Bolsonaro. O senador Omar Aziz (PSD-AM) preside a comissão e o senador Renan Calheiros (MDB-AL) é o relator. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

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O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) admitiu em depoimento à CPI da Covid no Senado que errou nas projeções sobre mortes e duração da pandemia do coronavírus e apresentou uma visão sobre a tese de imunidade de rebanho que contraria suas falas anteriores -sendo por isso confrontado pelos senadores.

Terra, aliado próximo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e apontado como integrante e “padrinho” do gabinete paralelo, negou que haja uma estrutura de aconselhamento do chefe do Executivo fora do Ministério da Saúde. E também disse que tem influência “zero” sobre o presidente.

O parlamentar presta depoimento à comissão nesta terça-feira (22). Terra havia sido convocado pelos senadores da CPI, mas o requerimento foi transformado em convite -formato em que a presença não é obrigatória- após pedido do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

Os senadores da comissão exploraram principalmente as previsões errôneas de Terra a respeito da pandemia e sua defesa pública da imunidade de rebanho.

O parlamentar reconheceu que errou, mas justificou a situação argumentando que elaborou suas projeções com base nos dados disponíveis na época e também nas informações de epidemias anteriores.

Terra declarou em março de 2020 que o Brasil teria no máximo 2.000 mortes em decorrência da pandemia, mas o país já ultrapassou a marca de 500 mil vidas perdidas.

“A China teve um surto completo. Ela começou, subiu, desceu e terminou. Tem 4.000 mortes na China até hoje. Era o surto que tinha na época para ser analisado: 4.000 mortes num país de 1,4 bilhão de habitantes nos levaram à ideia de que não seria uma coisa tão grave”, afirmou.

“O mesmo aconteceu com o surto da Coreia [do Sul], 185 mortes. No navio Diamond Princess, sete pessoas morreram em 3.500. Esses eram os dados, esses eram os fatos que tinham na época. E isso levou muita gente a fazer um julgamento otimista”, acrescentou Terra.

O parlamentar afirma que um dos motivos que levaram ao erro nas projeções foram as novas cepas do vírus. Terra também reconheceu não ter uma equipe de assessoramento epidemiológico. Ele alegou que tem obrigação de dar opinião sobre a pandemia por ser político.

“Eu não tenho estrutura nenhuma, senador. Não sou gestor, não determino nada, não tenho recursos para isso. Eu sou uma pessoa que tem opinião e, como deputado, eu tenho obrigação de dar opinião. Se não nem justifica eu ser político, ter mandato. Eu sou obrigado a falar.”

Terra afirmou que os estudos iniciais eram “apocalípticos” e que por isso muitos gestores passaram a defender as práticas de isolamento social. Terra atacou as práticas, como o lockdown. Disse que era “fora da realidade” trancar as pessoas em casa por longos meses, enquanto a vacina não era desenvolvida.

Ao atacar o isolamento social, afirmou que essa medida não funciona e prova disso é a alta taxa de mortalidade nos asilos. “Eu quero chamar a atenção só para um dado aqui, que pra mim justifica: se isolamento funcionasse, não morria ninguém em asilo.”

No entanto, especialistas alertam que a comparação não pode ser feita porque o fato de pessoas viverem em asilos não configura uma prática de isolamento social.

Os moradores dessas instituições constituem uma comunidade, na qual o vírus circula internamente, e funcionários e visitantes podem contribuir para infectar os internos. Além disso, trata-se de uma população extremamente vulnerável ao novo coronavírus.

Terra também repetiu argumento bolsonarista de que o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou as atribuições de Bolsonaro sobre as decisões tomadas na pandemia. E assim jogou a responsabilidade para os governadores, com quem Bolsonaro mantém relação conflituosa ao longo de toda a crise sanitária.

“Todos os governadores decidiram por fazer quarentena, lockdown, fique em casa, isolamento social. Então, essas 500 mil mortes não estão acontecendo em outro país em que o presidente podia decidir tudo”, disse.

O deputado relativizou declarações anteriores e disse que “nunca falou de imunidade de rebanho” como uma tese e que apenas constatou que essa imunização coletiva se dá ao fim das epidemias.

O relator, Renan Calheiros (MDB-AL), apresentou um vídeo no qual Terra aparece defendendo a tese como forma de combater a pandemia.

O deputado agora afirmou que essa imunidade coletiva é “consequência”, é “como terminam todas as pandemias” e que isso é atingido em parte pela vacinação.
Disse, por sinal, que é um defensor das vacinas e que elas foram a grande revolução da saúde, mas que as imunizações nunca foram desenvolvidas a tempo em pandemias.

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), rebateu algumas falas do depoente, em especial quando declarou que a política infectou a ciência para se referir aos ataques às medidas defendidas por Bolsonaro.

“Quem primeiro começou a falar de teses que não deram resultado positivo não foi nenhum de nós aqui [na CPI da Covid]”, disse Aziz. “A política não infectou a ciência. Alguns políticos, como Vossa Excelência, sim, infectaram a ciência.”

Apontado como um dos integrantes do gabinete paralelo, Terra afirmou que tem influência zero sobre Bolsonaro. “Influência, eu diria que zero. Eu conversei mais com o [ex-ministro Eduardo] Pazuello”, afirmou, ao ser questionado por Renan.

Terra evitou dar detalhes sobre suas conversas com o presidente a respeito da pandemia. Disse apenas que conversava sobre muitos assuntos com Bolsonaro.

“Sei lá. Eu, uma vez por mês, uma vez a cada 15 dias em alguns momentos [me encontro com Bolsonaro]. São encontros esporádicos que um deputado pode ter e tem a obrigação de ter”, afirmou.

Terra disse que o presidente escuta todo mundo, não só ele. Entretanto, não influencia no que Bolsonaro fala.

“O presidente fala o que ele quer falar, ele fala do jeito que ele entende. Eu não tenho poder sobre o presidente de ‘o senhor vai falar isso, vai falar aqui’. Isso não existe. Se eu tivesse esse poder, eu era o presidente, e ele era deputado. Não tem cabimento uma coisa dessas, querer imputar um poder sobrenatural para as pessoas. Ele ouve todo mundo, como todo mundo.”

Terra também disse que não há gabinete paralelo. Ele alegou que Bolsonaro escuta todas as pessoas, mas que isso não significa uma estrutura fixa de aconselhamento. Também afirmou que sempre defendeu as vacinas nesses encontros.

“Essa relação que tenho com o presidente é de amizade, assim como ele tem com muitos outros deputados. Quando, de vez em quando, o presidente me pergunta alguma coisa, eu falo.”

Terra disse que não tem contato com os possíveis membros desse gabinete, encontrou com essas pessoas de forma esporádica, como a médica Nise Yamaguchi, o médico Luciano Azevedo e o virologista Paolo Zanotto.

Além do depoimento de Terra, os senadores da CPI da Covid aprovaram a mudança na condição de 14 pessoas, que passaram de testemunha para investigados.
Renan apresentou na última sexta-feira (18) a lista de investigados, incluindo o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, o ex-chanceler Ernesto Araújo e o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello.

Governistas reclamaram que a lista não foi votada pelo colegiado, para tentar anulá-la. Aziz então decidiu colocá-la em votação, o que gerou ainda mais protestos.

Marcos Rogério (DEM-RO) reclamou que isso não poderia ser feito, segundo o regimento interno do Senado. “Estou fazendo porque eu posso”, respondeu Aziz.

 
 
 
Fonte: Folhapress
Etiquetas: admiteAliadoBolsonaroconfrontoCPI da coviderrogabinete paraleloimunidade de rebanhoOsmar Terraprojeção da pandemia
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