Imagine ganhar dinheiro pelos afazeres domésticos que já executa diariamente, como estender roupas e lavar louça. A única diferença é que você precisa gravar essa rotina e enviar as imagens para uma plataforma que treina robôs e ferramentas de inteligência artificial.
Essa prática já existe: plataformas de treinamento pagam por hora de gravação de tarefas domésticas e atraem cearenses em busca de renda extra. A Flambra, uma das empresas do segmento, tem mais de 20 mil usuários em sua base, sendo pelo menos 3 mil do Ceará.
Especialistas chamam atenção, entretanto, para os riscos do compartilhamento de dados e de apostar nisso como uma renda.
Cearense recebe R$ 1 mil por semana para treinar robôs
A enfermeira Sintia Monteiro venceu a desconfiança inicial e grava vídeos para duas plataformas. Em seus dias de folga, ela grava no mínimo 5 horas de atividade doméstica, que rendem uma média de R$ 1 mil por semana.
“Essa atividade tem representado uma fonte de renda complementar bastante significativa para mim. Um dos sonhos que consegui concretizar foi a aquisição do meu iPhone 17”, conta.
O trabalho consiste na produção de vídeos seguindo as demandas e orientações apresentadas, com atenção aos critérios de cada plataforma. Satisfeita com o retorno, Sintia pretende ampliar sua atuação para essas plataformas.
“Estou planejando permanecer em apenas uma escala de 12 horas de trabalho, o que me permitirá conciliar melhor minha vida profissional, a produção de vídeos e o tempo dedicado à minha família”, conta.

A plataforma Flambra promete remunerar R$ 25 aos usuários por gravações aprovadas, além de bônus por indicações. Segundo a empresa, a renda média é de R$ 4.500 por mês.
“Também temos membros que, somando produção e ganhos com indicações, já ultrapassaram R$ 30 mil em um único mês”, afirma a empresa.
COMO FUNCIONAM ESSAS PLATAFORMAS?
Os vídeos são remunerados após aprovação das plataformas, que avaliam o padrão de qualidade e as características das imagens.
Para começar a enviar vídeos, os usuários fazem um cadastro nas plataformas, que costumam enviar um suporte para prender o celular, garantindo que o vídeo registre o ‘ponto de vista’ de quem executa a tarefa.
Os vídeos coletados auxiliam na criação de datasets para que robôs humanoides e sistemas de inteligência artificial compreendam e futuramente executem atividades do mundo real.
Segundo a Flambra, os dados são utilizados por grandes laboratórios e empresas de robótica dos Estados Unidos e da China. O tempo que a plataforma utiliza as imagens varia conforme o projeto e as necessidades de treinamento.
As tarefas sugeridas pelas plataformas incluem manutenção da casa, organização, cuidados com carro e até cuidados com pets. Veja alguns exemplos:
- cozinhar
- montar móveis
- varrer
- tirar mato
- regar plantas
- limpar cômodos e aspirar
- passear com cachorro
- limpar e conferir pneus de carro
- organizar prateleiras e gavetas
Há pagamento extra para ‘”tarefas turbinadas” e por indicação de novos usuários.
Segundo uma das empresas, a oportunidade deve estar disponível “por muitos anos, já que os robôs precisarão de dados qualitativos do mundo real, mas os primeiros colaboradores serão os mais recompensados”.
REMUNERAÇÃO TENDE A DIMINUIR COM O TEMPO
Fernanda (nome fictício utilizado a pedido da fonte) começou a gravar vídeos para treinar IAs há duas semanas, atraída pela flexibilidade de encaixar a atividade na rotina.
“Muitas das coisas que eu gravo são tarefas que eu já faria normalmente, como organizar o quarto, arrumar o guarda-roupa, limpar a cozinha, passear com a minha cachorra e outras atividades do dia a dia. Então, para mim, é muito interessante poder receber por algo que eu já teria que fazer de qualquer maneira”, comenta.
Ela envia vídeos para duas plataformas e tem a maioria das imagens aprovada rapidamente. Uma das empresas realiza pagamento em dólar, cerca de US$ 3 por hora de vídeo.
A promessa de ganhos de até R$ 4 mil por mês é, na prática, uma isca de marketing para atrair grande volume de usuários, avalia o conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Pedro Henrique Arruda.
“O pagamento real costuma girar em torno de R$ 20 a R$ 25 por hora de vídeo rigorosamente validada pela plataforma, o que exigiria um volume impossível de tarefas inéditas em uma única residência para alcançar esse teto”, observa.

Para as empresas de IA, o negócio é lucrativo, já que a terceirização da coleta de dados é muito mais barata que recriar a aleatoriedade de cozinhas e armários em laboratórios.
A tendência, segundo o especialista, é que essa remuneração diminua a médio prazo, conforme o banco de dados da IA atinge a saturação para ações comuns, como lavar louça ou estender roupa.
A recomendação é que os usuários encarem a oportunidade como fonte esporádica de micro-renda, já que não há previsibilidade e certeza de que poderá compor o orçamento.
“Os riscos dessa aposta vão além da volatilidade da renda. Há um forte risco à privacidade, já que o usuário vende o mapeamento em vídeo do interior de sua casa e a rotina de consumo da família por micropagamentos, além do perigo de golpes que exigem falsas taxas de adesão para começar a trabalhar”, complementa.
RISCO DE EXPOSIÇÃO DE DADOS PESSOAIS
O envio de imagens para plataformas de treinamento de IA exige cuidados dos usuários com informações pessoais, explica o gerente do Observatório Brasileiro de Inteligência Artificial (OBIA), Luiz Alexandre Reali Costa.
A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, principais legislações desse segmento, não impedem esse tipo de serviço, mas riscos existem.
O acordo com as empresas deve envolver uma finalidade bem definida e amparada por base legal. A forma de armazenamento e o envio de dados para o exterior também podem trazer implicações com a legislação.
“São inúmeras perguntas e fatores que podem caracterizar o material como dado pessoal e, portanto, ficar sujeito à LGPD. No entanto, se o material for anonimizado, por exemplo, de forma a garantir que não possa ser revertido, o material deixa de ser considerado dado pessoal”, aponta.
Os vídeos podem conter uma grande quantidade de informações, já que expõem as casas, estilo de vida, hábitos e eventualmente documentos de quem grava e, possivelmente, de terceiros.
Quanto mais detalhes contiverem e frequentes forem as gravações, maiores as possibilidades de reconstrução de aspectos da rotina. No caso de aparecer algum menor de idade, entram ainda aspectos específicos da LGPD sobre o melhor interesse da criança.
O monitoramento e a fiscalização dessas plataformas têm se tornado cada vez mais complexos. Ao mesmo tempo, ainda não há uma conscientização progressiva sobre os riscos, pondera o pesquisador.












