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Pesquisa com pele de tilápias vira fábrica de curativos de R$ 52 milhões no Ceará

A matéria-prima do novo polo industrial é hoje descartada pela cadeia produtiva da tilápia. Eduardo Cavalcante, empresário da Só Tilápias, de Jaguaribara, é um dos fornecedores que vão abastecer a fábrica

12 de agosto de 2026
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Pesquisa com pele de tilápias vira fábrica de curativos de R$ 52 milhões no Ceará

Foto: Reprodução

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O Ceará será sede da primeira fábrica farmacêutica do Brasil dedicada à produção, em escala industrial, de curativos biológicos feitos a partir de pele de tilápia liofilizada. O empreendimento, da empresa Biotec Medical Xenograft Engineering, será instalado em Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, com investimento superior a R$ 52 milhões nos próximos três anos. A capacidade produtiva deve saltar de 180 mil peles processadas por mês no início das atividades para 400 mil unidades mensais ao final do terceiro ano, enquanto o faturamento estimado passa de R$ 58 milhões no primeiro ano para cerca de R$ 130 milhões anuais quando a planta estiver em plena operação.

A matéria-prima do novo polo industrial é hoje descartada pela cadeia produtiva da tilápia. Eduardo Cavalcante, empresário da Só Tilápias, de Jaguaribara, é um dos fornecedores que vão abastecer a fábrica.

“Aqui só tem a gente, vamos fornecer. Recebemos uma visita da empresa, eles mostraram interesse, estamos em negociação”, afirma Cavalcante, que produz cerca de 200 toneladas de tilápia por mês, parte no Açude Castanhão e parte fora do estado, na divisa com Piauí e Maranhão, entre Guadalupe e São João dos Patos.

Produção de tilápia, na empresa Só Tilápias, que deverá ser uma das principais fontes de matéria-prima da futura fábrica - Foto: Divulgação
Produção de tilápia, na empresa Só Tilápias, que deverá ser uma das principais fontes de matéria-prima da futura fábrica. Foto: Divulgação

“Hoje a pele é vendida para uma graxaria, onde é feito farinha de peixe. Com certeza, com a vinda da empresa, vamos agregar mais valor. É uma iniciativa muito bem-vinda”, diz o empresário, sobre um subproduto que hoje tem destino de baixíssimo valor agregado e passa a alimentar uma cadeia farmacêutica de alta tecnologia.

Em entrevista exclusiva ao Movimento Econômico, o secretário do Desenvolvimento Econômico do Ceará, Fábio Feijó, resume o significado do projeto para a estratégia econômica do Estado. “Esse é um caso muito positivo de atração de uma indústria de alto valor agregado, ligada à bioeconomia e à bioindústria, por conta de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Ceará (UFC). Toda essa pesquisa nasceu primeiro dentro da nossa universidade”, afirma Feijó.

Pesquisa da UFC virou patente internacional

O curativo biológico é resultado de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Ceará (UFC), por meio do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM). Também integram a iniciativa o Instituto José Frota (IJF), o Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ), o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), a Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE) e a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece).

Odorico Moraes, professor titular do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da UFC, explica que a tecnologia nasceu de uma patente da própria universidade. “A patente saiu da UFC. A Biotec ganhou uma consulta pública. A empresa se qualificou e será a responsável pela produção. Essa é uma das patentes, com a pele da tilápia liofilizada para queimaduras. Com atuação em São Paulo, fizemos um grande esforço para a empresa ficar no Ceará, onde será instalada no Vale do Jaguaribe”, relata o professor.

Odorico Moraes, professor titular da UFC, integra o núcleo de pesquisa responsável pela patente do curativo de pele de tilápia liofilizada - Foto: Divulgação/UFC
Odorico Moraes, professor titular da UFC, integra o núcleo de pesquisa responsável pela patente do curativo de pele de tilápia liofilizada. Foto: Divulgação/UFC

Segundo Moraes, os testes clínicos já validaram os efeitos do curativo em pacientes queimados. “Nesse caso do curativo, fizemos testes em 350 pacientes com queimaduras, e foi observado a rapidez na cicatrização, a queda nas infecções, além da diminuição da dor, acreditamos que a pele da tilápia possa ter uma substância anestésica ou analgésica, ainda sendo observada”, afirma.

O volume de matéria-prima previsto para a planta também tem respaldo na oferta local, segundo o professor. “Os peixes serão de produtores que atuam no Açude Castanhão e trabalham com filé de tilápia. Muitas vezes, a pele é descartada. A previsão de 400 mil peles por mês é aceitável, existe uma grande produção, esse número gera em torno de 200 mil tilápias por mês”, diz Moraes.

O secretário Fábio Feijó reforça os ganhos clínicos observados com o uso do curativo. “Diminui o tempo de internação, diminui os custos que os hospitais nacionais e internacionais têm. E ainda tem um efeito de regeneração da pele fantástico, capaz de aliviar a dor que, segundo os pesquisadores, nem a morfina consegue aliviar com a aplicação da pele da tilápia”, diz o secretário.

Mais patentes a caminho

A pesquisa da UFC não se limita ao curativo para queimaduras humanas. Segundo Odorico Moraes, o núcleo já testa outras aplicações da pele de tilápia e de seus derivados.

“Outras patentes ainda serão exploradas ao mercado. Temos estudos com o uso da pele no glicerol, atualmente essa patente é a com uso liofilizada. Também temos um estudo aproveitando o colágeno da tilápia, com o uso para o mercado de cosméticos. Outra também envolve o auxílio na lesão de córnea humana, ainda em estudo”, diz o professor.

Fábio Feijó também destaca que testes já demonstraram aplicação do curativo em queimaduras de animais, com repercussão internacional. “O que chamou a atenção, por exemplo, do México, foi que a aplicação não é somente para seres humanos, mas também para recuperação de queimadura de animais, de pets. Eles também mandaram amostras para estudos nos Estados Unidos, por causa dos incêndios florestais na Califórnia, e a recuperação foi fantástica”, afirma o secretário.

A tecnologia com os peixes nasceu de uma pesquisa da UFC e já tem procura de países como Turquia, México e Portugal - Foto: Divulgação/UFC
A tecnologia com os peixes nasceu de uma pesquisa da UFC e já tem procura de países como Turquia, México e Portugal. Foto: Divulgação/UFC

Ceará disputou fábrica com outros países

A proximidade com o principal insumo, a produção de tilápia, foi um dos fatores decisivos para a escolha de Jaguaribara, maior produtora de tilápia do Ceará e a 14ª do Brasil, à frente de municípios cearenses com produção até 80% menor. “Ser próximo à produção de tilápia não é para consumir o peixe, mas para resolver um problema de resíduo desse peixe. Toda produção de tilápia no país gera um passivo ambiental, que é o descarte da pele. Para nós, do estado do Ceará, é um exemplo que estamos dando para o país e para o mundo de como transformar um resíduo em um ativo econômico”, diz Feijó.

A fábrica nasce com previsão de gerar entre 200 e 300 empregos diretos em um município de cerca de 10,3 mil habitantes, hoje dependente do setor primário. “É uma oportunidade produtiva de alto valor agregado, para pagar a média salarial da indústria numa região carente de recursos, que só tem atividade do setor primário e vai nascer agora no setor secundário”, diz o secretário, que também destaca a receptividade da cidade ao projeto: “A cidade abraçou o projeto, se orgulha do projeto. Eles se sentiram muito abraçados pela comunidade.”

A operação também deve mirar o mercado nacional, com 80% da produção destinada ao Brasil e 20% ao internacional. “Essa indústria, que vai ser em Jaguaribara, poderia atender em torno de 25% da demanda do mercado nacional de pele regenerada, só visando o SUS”, afirma Feijó, referindo-se ao Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o secretário, a procura internacional já apareceu antes mesmo da inauguração da fábrica: “Eles tiveram contato da Turquia, do México e de Portugal. A partir daí, o Ceará virou mais atrativo. Temos o porto e o aeroporto mais próximos do leste dos Estados Unidos, do leste do Canadá, do México e da Europa. O nosso Porto do Pecém e nossas rotas aéreas também foram um grande diferencial”, diz Feijó. 

Fábio Feijó, secretário do Desenvolvimento Econômico do Ceará, apresenta detalhes do projeto da fábrica de curativos de pele de tilápia em Jaguaribara - Foto: Divulgação
Fábio Feijó, secretário do Desenvolvimento Econômico do Ceará, apresenta detalhes do projeto da fábrica de curativos de pele de tilápia em Jaguaribara. Foto: Divulgação
Incentivo cresce quanto mais longe da capital

O Estado também vai construir e ceder as instalações industriais por meio do Fundo de Desenvolvimento Industria (FDI), um programa de incentivo fiscal e de infraestrutura vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico. “Quanto mais longe dos grandes centros urbanos do Estado, mais pontuação a empresa ganha e mais o Estado consegue incentivar aquele empreendimento”, explica Feijó. Segundo ele, a cessão de uso da área é condicionada à efetiva instalação da indústria: “Eles vão receber uma cessão de uso, que só é renovável se efetivamente o processo for feito. Se, por acaso, não for, a política do Estado é que ele perde a cessão e a gente coloca uma outra bioindústria no lugar.”

De acordo com Feijó, os serviços de terraplenagem e regularização devem começar ainda no final deste ano, com a construção ao longo de 2027. “A previsão deles é começar os serviços de terraplenagem ainda no finalzinho deste ano, para iniciar a construção ao longo do próximo ano, e estarem prontos no final de 2027, início de 2028, já com a produção instalada”, diz o secretário.

 
 
 
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