O Ceará será sede da primeira fábrica farmacêutica do Brasil dedicada à produção, em escala industrial, de curativos biológicos feitos a partir de pele de tilápia liofilizada. O empreendimento, da empresa Biotec Medical Xenograft Engineering, será instalado em Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, com investimento superior a R$ 52 milhões nos próximos três anos. A capacidade produtiva deve saltar de 180 mil peles processadas por mês no início das atividades para 400 mil unidades mensais ao final do terceiro ano, enquanto o faturamento estimado passa de R$ 58 milhões no primeiro ano para cerca de R$ 130 milhões anuais quando a planta estiver em plena operação.
A matéria-prima do novo polo industrial é hoje descartada pela cadeia produtiva da tilápia. Eduardo Cavalcante, empresário da Só Tilápias, de Jaguaribara, é um dos fornecedores que vão abastecer a fábrica.
“Aqui só tem a gente, vamos fornecer. Recebemos uma visita da empresa, eles mostraram interesse, estamos em negociação”, afirma Cavalcante, que produz cerca de 200 toneladas de tilápia por mês, parte no Açude Castanhão e parte fora do estado, na divisa com Piauí e Maranhão, entre Guadalupe e São João dos Patos.

“Hoje a pele é vendida para uma graxaria, onde é feito farinha de peixe. Com certeza, com a vinda da empresa, vamos agregar mais valor. É uma iniciativa muito bem-vinda”, diz o empresário, sobre um subproduto que hoje tem destino de baixíssimo valor agregado e passa a alimentar uma cadeia farmacêutica de alta tecnologia.
Em entrevista exclusiva ao Movimento Econômico, o secretário do Desenvolvimento Econômico do Ceará, Fábio Feijó, resume o significado do projeto para a estratégia econômica do Estado. “Esse é um caso muito positivo de atração de uma indústria de alto valor agregado, ligada à bioeconomia e à bioindústria, por conta de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Ceará (UFC). Toda essa pesquisa nasceu primeiro dentro da nossa universidade”, afirma Feijó.
Pesquisa da UFC virou patente internacional
O curativo biológico é resultado de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Ceará (UFC), por meio do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM). Também integram a iniciativa o Instituto José Frota (IJF), o Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ), o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), a Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE) e a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece).
Odorico Moraes, professor titular do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da UFC, explica que a tecnologia nasceu de uma patente da própria universidade. “A patente saiu da UFC. A Biotec ganhou uma consulta pública. A empresa se qualificou e será a responsável pela produção. Essa é uma das patentes, com a pele da tilápia liofilizada para queimaduras. Com atuação em São Paulo, fizemos um grande esforço para a empresa ficar no Ceará, onde será instalada no Vale do Jaguaribe”, relata o professor.

Segundo Moraes, os testes clínicos já validaram os efeitos do curativo em pacientes queimados. “Nesse caso do curativo, fizemos testes em 350 pacientes com queimaduras, e foi observado a rapidez na cicatrização, a queda nas infecções, além da diminuição da dor, acreditamos que a pele da tilápia possa ter uma substância anestésica ou analgésica, ainda sendo observada”, afirma.
O volume de matéria-prima previsto para a planta também tem respaldo na oferta local, segundo o professor. “Os peixes serão de produtores que atuam no Açude Castanhão e trabalham com filé de tilápia. Muitas vezes, a pele é descartada. A previsão de 400 mil peles por mês é aceitável, existe uma grande produção, esse número gera em torno de 200 mil tilápias por mês”, diz Moraes.
O secretário Fábio Feijó reforça os ganhos clínicos observados com o uso do curativo. “Diminui o tempo de internação, diminui os custos que os hospitais nacionais e internacionais têm. E ainda tem um efeito de regeneração da pele fantástico, capaz de aliviar a dor que, segundo os pesquisadores, nem a morfina consegue aliviar com a aplicação da pele da tilápia”, diz o secretário.
Mais patentes a caminho
A pesquisa da UFC não se limita ao curativo para queimaduras humanas. Segundo Odorico Moraes, o núcleo já testa outras aplicações da pele de tilápia e de seus derivados.
“Outras patentes ainda serão exploradas ao mercado. Temos estudos com o uso da pele no glicerol, atualmente essa patente é a com uso liofilizada. Também temos um estudo aproveitando o colágeno da tilápia, com o uso para o mercado de cosméticos. Outra também envolve o auxílio na lesão de córnea humana, ainda em estudo”, diz o professor.
Fábio Feijó também destaca que testes já demonstraram aplicação do curativo em queimaduras de animais, com repercussão internacional. “O que chamou a atenção, por exemplo, do México, foi que a aplicação não é somente para seres humanos, mas também para recuperação de queimadura de animais, de pets. Eles também mandaram amostras para estudos nos Estados Unidos, por causa dos incêndios florestais na Califórnia, e a recuperação foi fantástica”, afirma o secretário.

Ceará disputou fábrica com outros países
A proximidade com o principal insumo, a produção de tilápia, foi um dos fatores decisivos para a escolha de Jaguaribara, maior produtora de tilápia do Ceará e a 14ª do Brasil, à frente de municípios cearenses com produção até 80% menor. “Ser próximo à produção de tilápia não é para consumir o peixe, mas para resolver um problema de resíduo desse peixe. Toda produção de tilápia no país gera um passivo ambiental, que é o descarte da pele. Para nós, do estado do Ceará, é um exemplo que estamos dando para o país e para o mundo de como transformar um resíduo em um ativo econômico”, diz Feijó.
A fábrica nasce com previsão de gerar entre 200 e 300 empregos diretos em um município de cerca de 10,3 mil habitantes, hoje dependente do setor primário. “É uma oportunidade produtiva de alto valor agregado, para pagar a média salarial da indústria numa região carente de recursos, que só tem atividade do setor primário e vai nascer agora no setor secundário”, diz o secretário, que também destaca a receptividade da cidade ao projeto: “A cidade abraçou o projeto, se orgulha do projeto. Eles se sentiram muito abraçados pela comunidade.”
A operação também deve mirar o mercado nacional, com 80% da produção destinada ao Brasil e 20% ao internacional. “Essa indústria, que vai ser em Jaguaribara, poderia atender em torno de 25% da demanda do mercado nacional de pele regenerada, só visando o SUS”, afirma Feijó, referindo-se ao Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o secretário, a procura internacional já apareceu antes mesmo da inauguração da fábrica: “Eles tiveram contato da Turquia, do México e de Portugal. A partir daí, o Ceará virou mais atrativo. Temos o porto e o aeroporto mais próximos do leste dos Estados Unidos, do leste do Canadá, do México e da Europa. O nosso Porto do Pecém e nossas rotas aéreas também foram um grande diferencial”, diz Feijó.

Incentivo cresce quanto mais longe da capital
O Estado também vai construir e ceder as instalações industriais por meio do Fundo de Desenvolvimento Industria (FDI), um programa de incentivo fiscal e de infraestrutura vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico. “Quanto mais longe dos grandes centros urbanos do Estado, mais pontuação a empresa ganha e mais o Estado consegue incentivar aquele empreendimento”, explica Feijó. Segundo ele, a cessão de uso da área é condicionada à efetiva instalação da indústria: “Eles vão receber uma cessão de uso, que só é renovável se efetivamente o processo for feito. Se, por acaso, não for, a política do Estado é que ele perde a cessão e a gente coloca uma outra bioindústria no lugar.”
De acordo com Feijó, os serviços de terraplenagem e regularização devem começar ainda no final deste ano, com a construção ao longo de 2027. “A previsão deles é começar os serviços de terraplenagem ainda no finalzinho deste ano, para iniciar a construção ao longo do próximo ano, e estarem prontos no final de 2027, início de 2028, já com a produção instalada”, diz o secretário.













