A história, as lendas e a identidade cultural de Aracati e de outros municípios do Litoral Leste do Ceará ganharam uma nova forma de chegar às salas de aula. Estudantes do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) desenvolveram jogos de tabuleiro inspirados nas características históricas, culturais e até econômicas das cidades da região.
A iniciativa faz parte do projeto “Tabuleiros do Saber, Jogos de tabuleiro como alternativa pedagógica à proibição de celulares nas escolas” e envolve Aracati, Cascavel, Itaiçaba, Icapuí, Beberibe, Fortim, Jaguaruana e Pindoretama.
No campus do IFCE em Aracati, os estudantes do Bacharelado em Ciência da Computação Ingrid de Castro Gondim e Gabriel Marchon Rebouças ficaram responsáveis pela criação de dois dos jogos. Ingrid desenvolveu “Aracati: Guardiões da Memória”, enquanto Gabriel criou “Caiçara”, inspirado em Icapuí.
Aracati vira cenário de jogo
Em “Guardiões da Memória”, elementos conhecidos da história de Aracati deixam de ser apenas referências visuais e passam a interferir diretamente na dinâmica da partida.
Um dos exemplos é o “Medidor da Cheia”, inspirado nas enchentes do Rio Jaguaribe que marcaram diferentes momentos da história do município. O jogo também reúne personalidades relacionadas a Aracati, como Dragão do Mar, Adolfo Caminha, Jacques Klein, Emiliano de Queiroz, Castorina Pinto e Zé Melancia.
O imaginário popular também ganhou espaço. Histórias e lendas locais, entre elas as relacionadas ao Beco do Museu e a Anahí, conhecida como a moça do cais, aparecem ao longo da experiência.
Segundo Ingrid, o objetivo foi fazer com que a própria história da cidade participasse das mecânicas do jogo e despertasse nos jogadores a curiosidade por acontecimentos e personagens que muitas vezes ainda são desconhecidos até mesmo por moradores da região.
“A intenção é despertar essa curiosidade e contribuir para a valorização e preservação da memória local”, explica a estudante.
Da pesquisa histórica às impressoras 3D
A criação dos jogos envolveu pesquisa histórica e cultural, elaboração das regras, desenvolvimento de cartas e personagens, testes com jogadores e utilização de diferentes tecnologias disponíveis nos campi do IFCE.
No jogo “Caiçara”, por exemplo, Gabriel Marchon utilizou máquinas de corte a laser, impressoras 3D de filamento e resina, impressoras de papel e outros equipamentos para desenvolver os componentes.
Cada equipe também buscou incorporar características próprias do município representado. Em “Entre Redes e Lendas”, inspirado em Jaguaruana, até a embalagem das peças ganhou identidade regional: elas são guardadas em uma pequena rede bordada pela estudante responsável pelo projeto.
Além de Aracati e Jaguaruana, foram desenvolvidos “A Lenda da Cascavel”, inspirado em Cascavel; “Passagem das Pedras: Crise na Vila”, sobre Itaiçaba; “SiliCorgrafia”, representando Beberibe; “Fortim: A Guerra do Comércio”; “Rapadura”, sobre Pindoretama; e “Caiçara”, inspirado em Icapuí.
Projeto surgiu dentro do próprio IFCE
A iniciativa nasceu a partir de dois projetos que já aconteciam no campus de Aracati: o Tabulando e o Forja, espaços dedicados aos jogos analógicos utilizados pelos estudantes durante os intervalos das aulas.
A partir da união das experiências, surgiu a proposta de explorar uma temática ainda pouco utilizada nesse universo: transformar cultura, memória e história regional em elementos de jogos.
O projeto é coordenado pela professora Andressa Bezerra Ferreira e foi desenvolvido em parceria com o Ministério da Educação, por meio da rede INTERSET-CE, iniciativa que reúne instituições públicas de ensino superior do Ceará em ações voltadas ao enfrentamento das desigualdades sociais.
Trabalho de Aracati será apresentado em evento nacional
O projeto já ultrapassou os limites dos campi envolvidos. Os trabalhos científicos produzidos a partir do desenvolvimento dos jogos começaram a conquistar espaço no meio acadêmico.
Uma das produções foi aprovada no SBGames 2026, evento acadêmico da área de jogos realizado no Brasil. No fim de setembro, integrantes da equipe viajarão para Goiânia, onde apresentarão os resultados do projeto.
Com isso, histórias que nasceram às margens do Rio Jaguaribe, nas praias, comunidades e cidades do Litoral Leste cearense passarão a ser apresentadas em um evento nacional dedicado à pesquisa e ao desenvolvimento de jogos.
Após a conclusão da etapa de desenvolvimento, o projeto entra agora em uma nova fase, voltada à divulgação científica dos resultados alcançados.
A proposta une tecnologia e educação a uma missão que vai além do entretenimento: fazer com que novas gerações conheçam, por meio de um tabuleiro, personagens, histórias e tradições que ajudam a construir a identidade de Aracati e de todo o Litoral Leste do Ceará.












